quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Os cabelos e a luz

Esta é Inês. É sergipana, de Aracaju. A conheci num congresso de comunicação social, em Caxias do Sul. Começamos a conversar dentro de um ônibus em direção à universidade. Eu estava com mais quatro amigos. Ela estava com mais uma amiga. Formamos um grupo de amigos. Nos reunimos e passamos um ótimo domingo de sol. Conversamos, passeamos, lanchamos, tocamos em uma roda de reggae no fim da tarde e jantamos na barraca de mate das ervas Valério.

Essa é uma breve apresentação para dizer que ao ver Inês e seus cabelos enxerguei uma fotografia. Vi que resultaria num belo desenho.

Estávamos tomando chimarrão. A lona que cobria a barraca da Valério Erva Mate provocou um efeito amarelado na luz do sol. Enxerguei ali a silhueta de Inês contra a iluminação. Um desenho.

Enquanto ela tomava seu mate e conversava, fui clicando. Algumas pessoas passavam pela frente. E a luz é um desafio constante, porque se modifica a cada segundo. Eu queria mostrar os cabelos.

Tentei várias vezes, em vários lugares, até realizar a captura acima. "Como vou destacar esses cabelos?". A luz construiu a foto que procurava. Uma pintura.

O mérito da foto está em Inês. Em seus cabelos em contraste com a iluminação do sol.

Adorei a foto.

sábado, 11 de setembro de 2010

A árvore de balas

Há quase 20 anos conheci uma pessoa que possuía a árvore mais preciosa do planeta. No pátio de sua casa, na cidade de Campo Bom (região metropolitana de Porto Alegre) ela estava plantada. Era uma árvore de balas.

Os sabores dos “frutos” eram de amendoim, morango, doce de leite e chocolate. Que planta maravilhosa. Eu era uma criança. Ele era um quase velho, muito sábio e gentil.

Uma vez, ou até duas por ano, ele vinha trazer os frutos da árvore. Criançada ansiosa para comer as balas. Mas, não era simples para ganhar uma. Aquele senhor fazia charadas, perguntas. “Qual a capital do Brasil?”, “Quanto é 2 vezes 3?”.

Quem acertasse a resposta, num bolo de crianças (todos primos), ganhava umas “balinhas” do meu tio-avô. E quem errasse, acabava ganhando uma “colher de chá”. Ele fazia uma pergunta bem fácil, que os outros com as mãos cheias, não podiam responder.

O tempo passou e eu descobri que a árvore de balas era um supermercado. Não mudou nada. Mesmo eu sendo um quase adulto, sempre ganhava as balas quando ele vinha visitar a irmã (minha avó), os sobrinhos e sobrinhos-netos.

Muito ouvi durante minha vida, o “tio Luiz chegou!”. Todos saíam de suas casas para abraçar o “tio Luiz” e a “tia Ilse”, sua esposa. Ele chegava de bermudas até os joelhos, de cor clara e um sapato leve, quase da mesma cor. Sempre usava um chapéu. Alguns até pareciam ser feitos de “caixa de ovo”. Era engraçado. Era sua característica.

Dos últimos três anos para cá, ele não pôde mais nos visitar. Ele contraiu uma doença terminal. No último dia de agosto desse ano, o tio não resistiu e nos deixou.

Quando recebi a notícia, de maneira involuntária, minhas lembranças buscaram um flash. Eu e meus primos, um bando de crianças, estávamos cercando o “tio Luiz”, ansiosos para responder rápido a cada pergunta e ganhar um punhado de balas.

Mais que uma árvore do doce, o tio plantava a harmonia em família. Ele criou uma fábula para nos ensinar coisas básicas da vida, um pouco de história, de matemática, de português. Para nos reunir e nos ver sorrindo. Um amontoado de crianças feliz. Um aglomerado de adultos em volta ajudando seus pequenos.

A árvore de balas viverá em minha memória para sempre. Sinto que fiz parte de um conto. Um senhor que “regava todas as manhãs” a sua árvore da felicidade e da alegria da gurizada. Que todo ano fazia a colheita e vinha distribuir aqui em casa.

O tempo passou, eu cresci e o senhor partiu. Foi embora na hora que deveria ir, aos 84 anos. Se foi depois de cultivar uma árvore de sorrisos, respeito, sabedoria, união e amor entre a família.

Agora, plante essa semente no céu, conte seu segredo sobre sua árvore cativa, faça a criançada daí de cima sorrir e aprender com a pureza do amor. Crie um conto. Continue a semear o bem ao lado de Deus.

Simples assim

Foto: Bernardo Bortolotto
Simples. As melhores coisas que acontecem na vida são simples. E tudo que é simples é inesperado e atinge aos seres com força. O que se espera do sol, se não a sua luz e o seu calor. O que mais vem do vento, se não um sopro no cabelo. E o verde da grama, um bom lugar para descansar. Da água, quer-se o refresco e a sede saciar. Aos animais resta a pureza da admiração e do amor.

É tudo tão simples que é óbvio. É tão óbvio que nem reparamos mais. A luz do sol surge por trás dos morros todos os dias. Amém! Quando é quente demais é reclamável. Mas, quantas vezes você o admira se esconder por trás dos morros, em sua despedida? Sentir o alaranjado do céu, à tardinha, em sua combinação esplêndida com a brisa que setembro sopra. Simples assim, grandioso ao espírito.

O verde da grama, a terra sentida entre os dedos das mãos, dos pés, é tão banal. É tão gostoso. Quem o faz, se não o morador do campo? Os Ipês amarelos e roxos já anunciam a chegada da primavera. Enfeitam nossas ruas e casas. Quem se reúne para vê-los florescer? De longe admiramos, em mais um desse afazeres de trabalho, talvez até de dentro de um carro.

A simplicidade da vida é o prazer da natureza. Aquilo que hoje não sentimos mais com a intensidade de décadas atrás. Os relacionamentos estão distanciados pelas tecnologias. A grama esquecida no pátio já está por cortar. O sol serve de lamento quando esquenta. E quando chove? O lamento é pela água que não para de cair.

As atividades humanas estão cada vez mais artificiais e complexas, a ponto de deixarmos de lado o simples. O belo. Contemple a chuva, o sol, o vento, a terra. Comemore com seus amigos ao lado de um lago, sob um céu azulado e um sol quente. Sinta a brisa bater em seus cabelos. Converse um pouco e logo vai sorrir. A simplicidade é assim, você espera muito pouco dela e ela te dá prazeres que imaginava não existir mais.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mochila nas Costas

Arte de Luísa Schneiders
Está no ar a página do programa de rádio Mochila nas Costas. Ele foi desenvolvido por acadêmicos de jornalismo da UNIFRA (Centro Universitário Franciscano) Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Foi gravado na Quarta colônia e o objetivo é fortalecer o turismo naquela região. O trabalho recebu nota máxima e foi apresentado no Intercom (Congresso Nacional de Comunicação) na Universidade de Caxias do Sul, entre os dias 2 e 6 de setembro.

Aproveite que está no computador e, enquanto faz suas coisas, Clique aqui para saber mais e ouvir as reportagens!

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma briga, dezenas interpretações

“As coisas não vão boas entre eles”, pensei durante uma viagem de ônibus. Dezenas de pessoas devem ter compartilhado meu pensamento. O que fazer? Todos ouviram. Todos notaram a frustração daquela menina. Espiei de canto, mas não consegui ver se chorava. Por que brigavam tanto?

Tudo começou quando o celular dela tocou nos cinco primeiros minutos de viagem.

- Oi, amor! - atendeu a menina.

Logo de início também iniciou sua defesa. Sua luta contra acusações, que não podiam ser ouvidas. Eram imaginadas por todos passageiros. Tentei desviar a atenção, olhando pela janela. De repente ela gritou:

- Quem te disse isso?

“Xiii! Deduraram a moça para o namorado”, pensei. “Onde tem fumaça tem fogo”. Era perceptível a perturbação das pessoas. Algumas senhoras ficaram constrangidas. Uma delas, sentada ao meu lado comentou:

- Essas moças de hoje em dia só fazem besteira - Assenti de leve com a cabeça e fiquei em silêncio. Afinal, em briga de marido e mulher... Desespero!

- Tu não pode fazer isso comigo! Não Pode! Isso é mentira – Agora o tom na voz era de choro.

Alguém do fundo pediu silêncio. O ônibus inteiro estava quieto. Todos atentos à conversa. Ninguém dormia, como é de costume ver. Uma menina, solidária ao sofrimento, ofereceu um gole de água. Ela não aceitou. A senhora ao meu lado comentou, de novo:

- Aposto que ela saiu com outros tantos e ele ficou sabendo pelas “amigas dela” – deu uma risadinha. “Será?”, me perguntei. “Pode ser”. A cobrança era insistente, o rapaz do outro lado da linha deveria ter bons argumentos. Um cara que estava sentado na poltrona à frente da minha se virou e sussurrou:

- Se fosse comigo, eu mandava ela se catar na hora! – uma outra moça que estava em pé no corredor disse:

- Coitada! Sofrendo tanto por causa de um traste. Aposto que ele não é um santo!

Talvez, não fosse mesmo. De repente:

- Amorzinho, a bateria do meu celular vai terminar. Eu chego em casa e te ligo. Ou melhor, eu vou até tua casa. Ai, não faz isso – um choro baixo se ouviu.

“Terminou a bateria”, concluí. O motorista deu uma olhada pelo retrovisor. Todos estavam quietos. Ninguém falou mais nada. Até o término da viagem, alguns conseguiram dormir.

Falar ao celular é tão comum que muitas pessoas nem se dão conta onde estão para tratar de assuntos sérios. Mais que isso, até que ponto é possível invadir o espaço de audição do próximo? Difícil saber. Contudo, ao quebrar essa privacidade abre-se um leque de interpretações e até de pré-julgamentos. É a consequência por falar ao celular desrespeitando as pessoas ao seu lado. Ainda mais em um ônibus, né?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Do Morro das Antenas

Foto: Bernardo Bortolotto
Longe de tudo e no meio do nada. Perto do céu. Um grupo caminha até o limite do Morro das Antenas. Todos contemplam a beleza


Uma cidade em miniatura. Ruas vazias, prédios solitários. Silêncio, alguns insetos apenas. De longe, bem de longe, se ouve um “tica-tac” de trem. Perde-se nas alturas. Um sinal de civilização que dura, apenas, três minutos.

Longe de tudo e no meio do nada. Perto do céu. Os urubus voam próximos e os insetos se aproveitam dos visitantes. Um grupo de pessoas chega e caminha até o limite do Morro das Antenas. Todos contemplam a beleza. Bela mãe natureza. Grandes prédios reduzidos pela vista longínqua. Maquete de Santa Maria.

Tudo parece parado. Lá de cima, só é possível imaginar o que se faz lá embaixo. Ritmo frenético no trânsito. Pessoas correndo? Alguns fazem compras. Outros são assaltados. Lá de cima, não se vê o corre-corre humano, apenas percebe-se o movimento da terra, pela luz do sol que já se despede.




Nota:
Essa foi minha primeira visita ao Morro das Antenas. E não poderia deixar de registrar a sensação de estar lá. Estava a trabalho com o cinegrafista da RBS TV Santa Maria, Claudio Vaz e o cantor nativista João Chagas Leite. Será uma homenagem aos gaúchos, à Semana Farroupilha.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pelo simples fato de cantar

Por Bernardo Bortolotto

Não sou músico. Muito menos canto bem. Sou desafinado e não sei entrar no tom das cordas de um violão. Mesmo assim, canto no trabalho, na faculdade, em casa, em qualquer lugar. São pequenos refrãos de um sertanejo, de um rock, pagode e até forró. Se o ritmo é vibrante, bom e animador, eu solto a voz. Quem estiver ao meu lado pode cantar junto. Alguns, até acompanham. Outros dão uma risadinha. Também tem aqueles que pedem silêncio. Mas, em questão de minutos, eu repito o refrão mais uma vez. É automático. É um esforço tremendo ter que parar de cantar quando a música está entranhada na cabeça.

Nessa semana, entre um refrão e outro, uma assobiada aqui, outra ali, lembrei de um célebre cantor de São Pedro do Sul. Já é falecido. Ele cantava sem medo, sem errar. Compunha a letra das músicas na hora e nem se importava com a avaliação do público. Era aplaudido. Você também vai lembrar. Refiro-me a Antão Padilha, o cantor das ruas.

Cantava com a liberdade de criar suas canções. De dar asas ao pensamento em refrãos solicitados por um público pequeno, geralmente composto por crianças e adolescentes. O palco podia ser uma calçada. Nela sentado, até mesmo deitado, sem camisa com chinelo nos pés, a cantoria explodia, ganhava mundo. Não ganhava um tostão. Ouvisse quem quisesse ouvir (e sempre tinha alguém atento).

A única importância de sua vida era a música. Criava na mente e colocava para fora num sopro das cordas vocais. Eu nunca soube se outra coisa lhe importava. As histórias de sua vida eram variadas, com poucas comprovações. Um legítimo fala daqui, fala de lá. Ah, e ele era falado. Talvez, alguns nem o conheçam por Antão Padilha. Ouvi pessoas dizerem “olha lá, o louco das músicas. Vamos pedir uma sobre o que hoje?”. Muito pedi música.

Essa lembrança chegou até Padilha. Saí da redação para buscar um café. Cantava um refrão pelos corredores, em voz quase baixa. Seria eu, um “louco das músicas”? Jamais. Esse patamar é para poucos. Não crio minhas canções, não as penso. Reproduzo aquilo que toca no rádio ou sai em um comercial de televisão.

Talvez, eu tenha algo em comum com Padilha e demais seres cantantes. Cantar nos faz muito bem. É o alívio, a fuga do estresse, a comemoração, a ligação harmônica entre os seres, é uma linguagem. Cantarolar é um gesto simples de alegria, um sopro de felicidade que se espalha pelo ar.

Cpers realiza debate com candidatos sem convidar Yeda

Do Jornal do Comércio

O Cpers/Sindicato realiza nesta sexta-feira (27), às 9h30, um debate com seis candidatos ao governo do Estado. O encontro será no salão de eventos do hotel Plaza São Rafael, no centro de Porto Alegre (Av. Alberto Bins, 509) e terá a participação de mil educadores.

Confirmaram presença os candidatos Pedro Ruas (P-Sol), Tarso Genro (PT), José Fogaça (PMDB), Júlio Flores (PSTU), Aroldo Medina (PRP), Montserrat Martins (PV). A ausência da candidata a reeleição pelo PSDB, Yeda Crusius, é justificada pela direção da entidade, que garante não ter convidado a governadora para o evento. "Durante quase quatro anos de governo, Yeda nunca quis sentar e discutir a educação pública com o Cpers. Portanto, não será agora, a convite do sindicato, que ocuparemos uma mesma mesa", afirmou Rejane de Oliveira, presidente do Cpers.

Em texto publicado na tarde desta quinta-feira (26) no site do Sindicato (www.cpers.org.br), a organização considera Yeda como "Inimiga da educação pública, dos educadores e dos movimentos sociais". Além disso a publicação afirma que "Na educação, ela (Yeda) passou sua gestão atacando a organização dos trabalhadores e os direitos conquistados pela categoria e tem reafirmado que, em caso de reeleição, manterá entre suas propostas a implementação da meritocracia e a realização de mudanças nas carreiras dos educadores".

A coligação Confirma Rio Grande, da candidata Yeda Crusius, divulgou nota lamentando o que considerou uma "atitude intransigente e preconceituosa do Sindicato". Além disso, o texto reitera a defesa dos projetos de reajuste enviados à Assembleia e justifica que antes de ingressar na vida pública Yeda foi professora e diretora da Faculdade de Economia da Ufrgs.

A nota ainda afirma que o veto à participação de Yeda Crusius no debate foi definido por menos de 1% dos 80 mil professores ativos e inativos. De acordo com a coligação, a decisão é "anti-democrática e tenta desestabilizar o processo eleitoral em curso e afronta a tradição de alto nível dos educadores gaúchos " e o fato "denuncia o caráter autoritário na falta de representatividade".

Brasil aplicará R$ 4 bilhões para garantir seguro rural

Da Agência Estado
Foto: Ernesto Benavides/ AFP/ JC
O Diário Oficial da União publica nesta sexta-feira (27) a Lei Complementar que autoriza a participação da União no fundo conhecido como Fundo de Catástrofe. A criação do fundo atende à reivindicação dos setores agropecuário e securitário para proteger as operações de seguro rural, caso as lavouras sejam afetadas por catástrofes climáticas como secas, geadas, enchentes, pragas e doenças.

O governo vai aplicar R$ 4 bilhões por meio de títulos públicos. A metade desse valor será liberada logo após a criação do fundo e a outra metade, em três anos. De acordo com o Ministério da Agricultura, apenas 10% da área plantada têm cobertura do seguro rural, e o fundo poderá estender essa cobertura para 56% da área cultivada.